segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Esta Estranha Justiça Inglesa

Em 2003, o deputado inglês Chris Huhne foi apanhado num radar em alta velocidade. Na época, a então mulher dele, Vicky Price, assumiu a culpa.
O tempo passou e aquele deputado passou a Ministro da Energia, só que o seu casamento acabou.
Vicky Price decide vingar-se e conta a história à imprensa.
Como é na Inglaterra, Chris Huhne, Ministro, demite-se primeiro do ministério e depois do Parlamento.
ACABOU A HISTORIA?
Qual o quê! Estamos na Inglaterra... E na Inglaterra é crime mentir à Justiça.
Assim, essa mesma Justiça funcionou e sentenciou o casal envolvido na fraude do radar em 8 meses de cadeia para cada um e uma multa de 120 mil libras (+-100 mil euros).
SEGREDO DE JUSTIÇA?
Nem pensar, julgamento aberto ao público e à imprensa. Quem quis, viu e ouviu.
SEGURANÇA NACIONAL?
Nem pensar, infrator é infrator.
PRIVILÉGIO POR QUE É POLÍTICO?
Nada!
Chris Huhne & Vicky Price (Foto: Reuters/Getty)
E o que disse o Primeiro Ministro David Cameron quando soube da condenação do seu ex-ministro?
"É uma conspiração da mídia para denegrir a imagem do meu governo?" ou "É um atentado contra o meu bom nome e dos meus Ministros?", ou "São as elites tramando contra meu governo"?
Errado. Esqueçam! Nada disso!
O que disse o Primeiro Ministro David Cameron não foi acerca do seu ex-ministro. 
Foi sobre o funcionamento da Justiça. E o que disse foi:
"É bom que todos saibam que ninguém, por mais alto e poderoso que seja, está fora do braço da Lei."
Estes ingleses são mesmo um bando de atrasados, não são?

domingo, 10 de dezembro de 2017

Os Oportunistas da Previdência

Artigo do Chequer publicado na Folha Online deste final de semana:


As negociações sobre a reforma da Previdência trazem nova luz sobre as dimensões do oportunismo do Congresso Nacional.

Comecemos pela parte mais racional e inquestionável. Não há registro na história da humanidade de um país que tenha atingido crescimento, elevação de níveis de educação, renda, segurança e bem-estar, sem que atingisse equilíbrio fiscal. É simples. Sem equilíbrio de contas, não há confiança, investimento, emprego, renda, nada.

Há um detalhe importante na forma como a realidade fiscal é vista por investidores. A situação atual importa menos que a situação projetada. Um país que tenha situação fiscal sofrível, com um plano crível de recuperação, pode atrair mais interesse e dinheiro do que um país que, mesmo com uma foto atual positiva, mostre uma trajetória de deterioração.

Pois o Brasil tem o pior dos dois mundos: um rombo histórico nas contas do presente, e uma trajetória de rápida deterioração futura. Diante de tal quadro, o que você esperaria que fizessem nossos parlamentares, já que eles têm o poder de tirar o navio Brasil da rota de colisão com o iceberg? Que estivessem desesperados com a situação, inexorável, e se pusessem a consertá-la? Pois pasmem, eles estão fazendo o contrário. Estão tentando se aproveitar dessa situação para negociar mais dinheiro para suas campanhas eleitorais, e cavando um buraco ainda maior para o país e para os brasileiros.

As mudanças na legislação eleitoral, aprovadas com pressa pelos parlamentares em outubro último, criaram um dispositivo que engorda o Fundo Eleitoral à medida que se aumentam as emendas de bancada –dinheiro transferido diretamente do Orçamento nacional (nossos impostos) para alocações dirigidas por parlamentares. Sim, são gastos adicionais –fala-se em R$ 30 bilhões– que geram outros gastos adicionais, neste caso mais dinheiro para campanhas eleitorais. Se você está achando que isso não faz sentido, que é indecente, que não é sustentável, que piora as contas públicas e a representatividade ao mesmo tempo, você está certo.

O Brasil havia dado um importante passo na direção do equilíbrio das contas públicas ao aprovar a PEC do Teto, uma reforma que limita os gastos do governo. O problema é que, com a trajetória de deficit previdenciário crescente, esta reforma pode ser a primeira reforma a CAIR no próximo governo, dado que os gastos previdenciários podem comer todo o orçamento, inclusive o da saúde e o da educação. Se nada for feito agora, o debate que vai permear o mandato do próximo presidente será o de anular as reformas conquistadas neste. Não há nada tão ruim que não possa piorar, principalmente com os parlamentares que temos.

Mesmo diante desse quadro sombrio, parlamentares escolhem uma posição de barganha. Os partidos de esquerda mantêm sua posição populista e irresponsável contra ajustes da Previdência, com o discurso falacioso da perda de direitos. A novidade agora é o PSDB, que bate seus próprios recordes de fisiologismo e covardia. Juntam-se para levar o Brasil mais ao fundo do poço.

Em tempo –a reforma da Previdência pretendida agora já está totalmente esvaziada. Ela não resolve o problema todo, mas cria uma importante ponte para a próxima legislatura, que vai ter que lidar com essa encrenca. Aqui entra você, como eleitor: é de vital importância cobrar os candidatos à Presidência e o Congresso sobre seu claro posicionamento em relação a este problema, que compromete o futuro do país. Não aceite posições populistas.

O que fazer? Acompanhar as barbáries e registrar seus autores, os oportunistas de plantão. Registre cada nome, cada discurso populista, desses que travestem a rota de colisão do país como uma "perda de direitos". Assegure-se que você, com o voto e a influência nos seus meios, não permita que eles continuem no poder, já que o principal poder que têm é o da destruição. E o seu, o de não os reeleger.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Quanto Vale um Sorriso?

Pedro Superti (via Facebook)

Foi somente eu parar o carro e já o vi com a placa. Vinha caminhando direto na manhã direção.

Fiquei nervoso. Levantei o vidro da janela e fiquei atento. Reação padrão para quem morar nos grandes centros hoje em dia.

E foi aí que ele me disse algo que me surpreende até hoje.

"Bom dia, meu patrão! Você tá vendo quantos carros têm parados aqui? De todos esses carros foi o seu que eu escolhi. Por isso vim falar com você. Porque eu tenho um desafio para lhe fazer."

Como assim? Aquilo me pegou muito desprevenido. Imediatamente ele prendeu minha atenção. Nunca, ninguém me abordou do semáforo desse jeito.

E é claro que eu não resisti ao desafio!

Eu falei:

"Opa. Tem um desafio? Tá bom. Eu não fujo do desafio. Vamos lá." (Afinal de contas, quem gosta de assumir que foge das coisas?)

Foi aí que ele disse algo que está gravado na minha mente até hoje.

"Eu quero compartilhar um poema que eu criei. E quero que você avalie quanto que esse poema vale pra você. Pode ser?"

Lógico que eu aceitei. Afinal, como eu poderia dizer não? Ainda mais quando ele reforçou:

"É bem rapidinho, leva 10 segundos."

Redução de riscos. O cara entendia de marketing.

Então ele declamou o poema.

Eu estava tão interessado naquela lição de marketing que estava tendo com aquele rapaz no semáforo que por alguns minutos me peguei imaginando "quantas pessoas ele aborda dessa forma, quantos outros ele consegue encantar com suas histórias assim como aconteceu comigo..."

Só então que fui me dar conta de que havia perdido uma parte do poema dele e infelizmente não vou conseguir reproduzir aqui.

Mas de uma coisa eu me lembro. O verso final, que dizia assim:

"O sorriso verdadeiro pode despertar até o mais gelado dos corações".

Então ele emendou com uma piada e quando me dei por si, estava rindo feito um bobo de tão marcante que foi a situação.

Ri e achei muito criativa aquela abordagem.

Foi aí que ele disse:

"Viu, meu patrão? Aí ó. Meu desafio já tá conquistado. Era lhe fazer sorrir. E se quiser me ajudar, pode me dar o valor que o senhor acha que valeu esse sorriso".

"Quanto você acha que vale esse sorriso que está no seu rosto?"

Olha que aula de marketing esse rapaz deu no semáforo!

Tem várias lições que a gente pode aprender ali.

Moral da História: Quanto Custa o Sorriso do Seu Cliente?

Como empreendedor, o insight que tive foi: decidir encantar o cliente, ao invés de apenas mendigar pela venda.

Quando aquele rapaz limpador de vidros recitou seu poema e disse que eu poderia contribuir com qualquer valor, eu pensei:

“Não tem preço que pague o sorriso que tive agora”.

E é lógico que eu o ajudei com mais dinheiro do que algumas moedas. Que aliás, seria o que ele receberia se apenas estivesse pedindo ajuda usando a mesma abordagem do "Tem uma moeda?" que tantos outros usam por aí.

Quando você encanta seu cliente, ele passa a entender o valor do seu produto ou serviço. Ele pára de te comparar com a concorrência barateira. Você mostra o quanto ele é especial para sua empresa. Que se importa com o sucesso dele.

E ele passa ver sua marca como um parceiro, um amigo, um mentor até. E não como "só mais uma" empresa.

Eu vou compartilhar contigo 3 dicas simples, que toda empresa pode aplicar sem custo essa semana ainda.

3 Dicas Simples Para Encantar Qualquer Cliente:

1. Prometa Menos. Entregue Mais

Todo mundo promete muito, entrega pouco. Faça diferente.

O pedido vai levar 5 dias para chegar? Diga que vai chegar em 7 e entregue em 5. Seu prato leva 10 minutos? Entregue em 8. Dê um brinde no final da sua consulta.

Pense em como ajustar o que você promete/faz para entregar mais do que foi prometido. O cliente vai ficar super feliz e não vai custar basicamente nada a mais para você.

2. Dê Um Presente de Verdade

Nada de vale presente. Entre no Facebook pessoal dos seus melhores clientes e investigue até descobrir algo que ele goste. Pode ser uma mini-série, um livro, um esporte.

Compre algo que tem a ver com ele e mande entregar. Quem faz isso? Ninguém. Justamente por isso, quem faz, fica lembrado para sempre.

3. Faça Seu Cliente Sentir-se Dono

Escolha um dos seus clientes mais fiéis, mais valiosos, e pergunte:

“O que você melhoraria aqui se você fosse dono dessa empresa?”.

Pode ser pessoalmente ou por telefone, mas deixe-o falar o que a empresa poderia melhorar do ponto de vista do cliente.

Realmente dê atenção e valor para o que ele vai responder, e ele pode dar ideias que você nunca imaginou, além de se sentir importante e valorizado.

É como se você estivesse pedindo um "conselho", mas sem dizer isso. E o sentimento de importância (um sentimento-chave para o ser humano) que ele vai sentir, o tornará diferente, na mente dele, por muito tempo.

Essas dicas são tão importantes, que vamos dedicar 3 dias inteiros falando sobre como fazer isso na prática.

Vai ser o foco Fator X Live, nosso evento ao vivo anual que vai acontecer em Janeiro, em SP. Vamos reunir mais de 2.000 empreendedores para aprender com os alguns dos melhores do mundo em áreas como:

-- Liderança: Como Ser o Gestor que Sua Empresa Precisa Para Passar para o Próximo Nível

-- Empresa Familiar: Como Trabalhar Com Familiares Para Que Seja Uma Vantagem, Ao Invés de Um Peso

-- TOP 5 Fatores Para Fazer Seus Clientes Se Sentirem Membros de Sua Tribo

-- Entrando na Fase Adulta: Como Usar Investidores para Ganhar Escala e Virar uma Marca Global

-- E muito mais!

Mas as vagas são limitadas.

Para saber se ainda temos vagas disponíveis, clique neste link: http://www.ofatorx.com.br/live18

PS: Marque aquele amigo, sócio ou colega que pode se beneficiar destas 3 dicas para aplicar em seu negócio.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Exército Ruge

Em artigo no Estadão de quarta-feira, dia 6 de Dezembro, o general Rômulo Bini Pereira, que foi chefe do Estadão-Maior da Defesa, mandou um recado ao STF (mas não só): “Condutas irresponsáveis e antipatrióticas não se podem tornar costumeiras em nossa vida pública”.
Leiam um trecho que considero mais importante:
“Infelizmente, para grande parte da sociedade brasileira, não chegamos a um nível democrático que nos dê esse equilíbrio. Para muitos, incluídos os intervencionistas, o sistema inexiste e o processo político está voltado, exclusivamente, para interesses individuais ou de grupos partidários. Questionamentos são sempre feitos nas possíveis soluções das crises que surgem. Para quê? Para quem? Para onde? O interesse do País raramente está presente nas respostas, ficando quase sempre em segundo plano.
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) optando pela prévia aprovação das Casas legislativas para a adoção de medidas cautelares impostas a parlamentares é um exemplo. O corporativismo prevalecerá e políticos acusados de crimes estarão imunes e receberão a chancela de inocentes. Outro exemplo foi o incompreensível pedido de vista de um ministro do STF após sete votos favoráveis a pôr fim à imunidade parlamentar, um enorme anseio da sociedade. O pedido não visa um conhecimento maior da causa, mas sim um prazo ampliado que possibilite o Congresso concluir a votação de emenda constitucional do mesmo tema. Se considerarmos que duas centenas de congressistas são processados no STF, a queda da imunidade provavelmente não passará – e nem todos os brasileiros serão iguais perante a lei. Será uma contraposição entre o Judiciário e o Legislativo, advindo certamente outra crise entre eles.
E como se não bastasse, há outro exemplo lamentável. Em sua posse, na presença do presidente da República, o novo diretor da Polícia Federal declarou que uma única mala talvez não desse toda a materialidade criminosa. Referia-se a uma das componentes da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o presidente, justamente quando assumia o cargo que lhe foi dado pelo denunciado. Com certeza uma declaração adrede preparada e comprometida.
Tais exemplos demonstram que no mais alto nível da República o sistema de pesos e contrapesos não funciona como deveria e prima pelo desequilíbrio, sendo, por isso mesmo, comprometido e não confiável, justamente por predominarem os conchavos, os interesses individuais e de grupos, a troca de vantagens e de benesses à sombra de um Congresso subornável e de uma Justiça ‘partidária’. As medidas cautelares, o pedido de vista do ministro e a atitude comprometida, tríade degradante para muitos brasileiros, reforçam o descrédito dos nossos três Poderes perante a sociedade.
Segundo publicações veiculadas pelas redes sociais, um trecho de declaração atribuída ao general Figueiredo, último presidente militar, dirigida ao mundo político, chocou a sociedade: ‘… jogarão a Nação num lamaçal de dimensões continentais, onde o povo afundará na corrupção, na roubalheira, na matança até que se instaure o caos social, seguido de uma guerra civil’. Mesmo que não seja verídica, muitos adeptos da intervenção militar já consideram profética tal declaração.
O Brasil precisa encontrar soluções para os enormes impasses que vivemos, para que nenhuma ilegalidade esteja acima do interesse do povo brasileiro. As forças vivas da Nação, movidas pelos homens de bem, incluindo as Forças Armadas, não podem permitir que condutas irresponsáveis e antipatrióticas se tornem costumeiras em nossa vida pública, por atingirem frontalmente os princípios éticos e morais que conduzem um regime democrático e que resultarão num arremedo de democracia.”

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Temer não sorri das ‘piadas’ de Moro

Agraciado pela revista IstoÉ com o prêmio Brasileiro do Ano, Sergio Moro dividiu o palco com Michel Temer e outros personagens em litígio com a lei. O juiz da Lava Jato tinha duas alternativas: ou encarava o inusitado com um sentido de absurdo ou enxergava tudo sob a ótica do deboche. Preferiu encarar a situação como uma piada. Ao discursar, o juiz da Lava Jato revelou-se um humorista insuspeitado.
Moro falou sobre providências que precisam ser adotadas ou evitadas para combater a “corrupção sistêmica” que assola o país. Reiterou, por exemplo, a defesa da regra que abriu as portas das celas para os condenados na segunda instância. Injetou uma certa ponderabilidade cômica na cena ao pedir ajuda a Temer.
Com duas denúncias criminais no freezer, Temer terá de acertar contas com a Justiça depois que deixar a Presidência. Num instante em que seus aliados tramam aprovar um mecanismo qualquer que mantenha ex-presidentes fora do alcance de ordens de prisão de juízes como Moro, o comediante sugeriu a Temer que se enrole na bandeira da prisão em segundo grau:
''Mais do que uma questão de justiça, é questão de política de Estado”, disse Moro. Ele pediu a Temer que “utilize o seu poder” para influenciar o Supremo Tribunal Federal, de modo a desestimular a mudança da regra. “O governo federal tem um grande poder e grande influência. E pode utilizar isso. Se houver mudança, será um grave retrocesso.”
Um detalhe potencializou o teor humorístico do pedido que Moro dirigiu a Temer: o ministro Gilmar Mendes, amigo e conselheiro do presidente, é o maior defensor da política de celas vazias no Supremo.
Gilmar compôs a maioria de 6 a 5 que autorizou a prisão de condenados em tribunais de segundo grau. Mas já deixou claro que pretende mudar o seu voto quando a questão retornar ao plenário da Suprema Corte. Foi como se Moro sugerisse a Temer dizer algo assim para Gilmar: “Tem que manter isso, viu?”
Como em todo bom espetáculo de stand-up comedy, Moro falou como se extraísse da plateia motes para suas anedotas. Defendeu o fim do foro privilegiado diante de Moreira Franco, o amigo a quem Temer fez questão de presentear com o escudo. Concedeu-lhe o título de ministro e o consequente direito de ser julgado no Supremo depois que o companheiro virou o “Gato Angorá” das planilhas do Departamento de Propinas da Odebrecht.
O foro concede ''privilégios às pessoas mais poderosas'', declarou Moro, arrancando efusivos aplausos da audiência. ''Seria relevante eliminar completamente o foro ou trazer uma restrição ao foro.'' Como juiz, Moro também dispõe de foro especial. ''Não quero esse privilégio para mim'', refugou, sob aclamação.
Temer e Moreira abstiveram-se de aplaudir Moro. Outros acompanhantes do presidente também sonegaram ao juiz a concessão de uma salva de palmas. Entre eles o presidente do Senado, Eunício Oliveira, o “Índio” da planilhas da Odebrecht.
Como que decidido a borrifar graça na atmosfera, Moro sugeriu ao ministro da Fazenda, também presente à premiação, que seja mais generoso com a Polícia Federal: “Pedindo vênia ao ministro Henrique Meirelles, que faz um magnifico trabalho na economia, me parece que alguns investimentos são necessários para o refortalecimento da Polícia Federal. O investimento na atuação do Estado contra a corrupção traz seus frutos.”
Temer discursou depois de Moro. Mas não disse palavra sobre Lava Jato ou o combate à corrupção. Preferiu bater bumbo pela reforma da Previdência.
Destoando do resto dos presentes, o presidente e seus acompanhantes não ficaram em pé quando Moro subiu ao palco para receber o seu prêmio. Durante o discurso do juiz, exibiam cenhos crispados. Tratados como reformadores morais, as piadas não acharam graça de si mesmas. Por sorte, o humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende coisa nenhuma.
Josias de Souza - UOL

domingo, 3 de dezembro de 2017

O Efeito Picciani

Fernão Lara Mesquita O Estado de S. Paulo de 21/11/2017
Depois de Lula e dos demais esquecidos da primeira temporada deste emocionante seriado, tivemos Temer, Aécio e agora os Picciani…
O ciclo é sempre parecido: à completa e persistente omissão com relação a crimes de todos velhíssimos conhecidos sobrepõe-se, de repente, uma super-reação das mesmas autoridades até então omissas desencadeada, em geral, para desviar a atenção dos alvos realmente visados por essas subitas inversões de comportamento. Segue-se a comoção publica expressa numa “indignação” que pode incluir todos os ingredientes menos o de uma genuína surpresa com as “revelações” sobre o comportamento de sempre dos alvos da vez, que deságua invariavelmente na desolação com os panos quentes em que tudo acabará morrendo.
Fiquemos com o episódio mais recente. Quem não sabia, sobretudo no Rio de Janeiro, quem são os Picciani? O pai é, ha quatro mandatos, presidente da Assembléia Legislativa do RJ. Um filho, Rafael, era o secretário de Transportes de Eduardo Paes. O outro, Leonardo, foi contratado por Dilma como o goleiro do impeachment na Camara Federal, entregou o voto contra que vendeu e, mesmo assim, Temer teve de engoli-lo como seu ministro de esportes. Ou seja, ele virou o dono oficial da Olimpiada. Extra-oficialmente, a torcida do Flamengo e o resto do Rio inteiro sabiam que a estrutura fisica do evento que a Rede Globo faturou comercialmente sozinha ja era território privativo de caça da família, dona da Mineradora Tamoio de onde saiu cada pedra da construção da Cidade Olímpica e da reforma geral do Rio de Janeiro que inglês veria na Olimpíada comprada por Lula, O Esquecido, nos termos pelos quais acabou pagando o laranja Carlos Arthur Nuzman. O esquema dos Picciani é prosaico de tão explícito. Depois do milagre da conversão de uma estação de trens publica no shopping center privado batizado de Centro Comercial de Queimados, eles vêm, sucessivamente, transformando os bois que essa operação rendeu em pedra para obras publicas e estas em mais e mais bois da Agrobilara, sócia da Mineradora Tamoio e de tantas cositas mas.
Mas o padrão brasileiro não varia. A exposição com pompa e circunstância do que todo mundo sabia desde sempre gera uma espécie de “obrigação” de uma repercussão. E la vai a falsa imprensa (a verdadeira acaba tendo de ir de arrasto) estendendo microfones a figuras escolhidas para bradar o óbvio. E isso pede outra reação das autoridades que, sabendo desde sempre de tudo e até, frequentemente, tendo participado da falcatrua, nunca se tinham dado por achadas. Como a nossa justiça é feita para que processo nenhum chegue ao fim, o abacaxi invariavelmente vai parar no colo do STF. O país divide-se, então, em “lados”: os que querem que os milhões de eleitores se danem e possam ser substituídos pela decisão de 6 juízes com posições assumidas na disputa de poder e os que são obrigados a engolir a impunidade do ladrão flagrado para não dar a 6 juízes essa perigosíssima prerrogativa.
Evidentemente essa não é a única alternativa possível. No mundo que funciona existe o direito a leis de iniciativa popular para garantir que o Legislativo discuta o que o país achar que ele deve discutir, o referendo para garantir que ele não desfaça o que o povo mandar ele fazer, e o recall para garantir que assim seja, amém, porque quem manda é quem demite.
Todo mundo sabe que o problema não é o sujeito submeter-se ou não ao poder econômico, o fantasma contra o qual todos os exorcismos, mesmo os mais primitivos, são justificados no Brasil, o problema é você não poder tirar ele de la nem que fique provado que é um vendido. Não resolve nada montar esquemas incontroláveis por definição para financiar campanhas eleitorais com “dinheiro público”, essa coisa que não existe. Não adianta nada dar superpoderes ao Ministério Público e à Polícia Federal. Ao contrário. Isso é um perigo pois, daí pra frente, como é que fica? Tem de torcer pra que eles não se corrompam nunca, mesmo podendo tudo? Que não entrem jamais no jogo político? Que não exijam supersálarios já que são super-homens?
O chato nessa história é tudo ser tão certo e sabido e ha tanto tempo. É o poder que corrompe. O dinheiro é só um meio pra comprar poder, já se sabe desde a Bíblia. Por isso o sentido da democracia é sempre diluir e jamais concentrar o poder. Ou seja, nem o Judiciário tem de tirar, nem o Legislativo tem de repor político flagrado no cargo. Não é o cargo, é o mandato que deve ser protegido por certas imunidades, exatamente porque pertence ao eleitor, o outro nome do povo, unica fonte de legitimação do poder numa democracia. O que quer que se invente em materia de sanção à corrupção nada vai ser tão eficiente, tão barato e, principalmente, tão à prova de corrupção, portanto, quanto dar ao eleitor, e só ao eleitor, o poder de se livrar, no ato e no voto, de todo agente público que der o menor sinal de que se corrompeu, aí incluídos também os juízes, os promotores e os policiais.
Ah mas brasileiro não tem cultura nem educação pra isso”.
E quem é que tem? O político brasileiro?! O juiz que ele nomeia?! Desde quando precisa de cultura e educação pro sujeito saber quando tá sendo roubado? Conversa! Os Estados Unidos fizeram essa reforma no final dos 1800 quando a população era aquela dos filmes de caubói…
O Brasil tem cura, mas tem que focar em duas coisas. A primeira é que democracia é quando o povo manda e os políticos SÃO OBRIGADOS a obedecer. A segunda é que, na vida real, manda quem tem o poder de demitir. O resto é mentira.


Só o eleitor tem o direito de dar e de tirar mandatos a pessoas comuns pra exercerem temporaria e condicionalmente poderes especiais. O território do Legislativo acaba antes e o do Judiciário só começa depois desse limite que é exclusivo dele. Passar esse poder a qualquer agente público é acabar com a legitimidade da representação que sustenta todo o edifício da democracia e plantar a corrupção e a opressão que, com toda a certeza, a gente vai colher amanhã.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A jogada de Huck

“Hoje amanhecemos com o artigo de Luciano Huck na Folha. Para quem ainda não leu, ele basicamente diz, com todas as letras, que não é candidato à presidência.
Não conheço Luciano Huck e não tenho a menor ideia de como ele pensa, do que sentiu nas últimas semanas e se está falando a verdade ou não. Talvez esteja mesmo, afinal, ser um candidato do porte que ele seria exige estômago e um desprendimento com a própria imagem que não é para qualquer um.
Mas vamos imaginar um cenário onde, no fundo, ele ainda tenha pretensões. O que quero mostrar é que, considerando essa hipótese, o artigo de hoje também se encaixa perfeitamente.
Décadas atrás um cara chamado Joseph Campbell estudou mitologias de diversas sociedades, algumas que nunca se encontraram ou nunca souberam da existência umas da outras, e descobriu algo impressionante.
Todas as histórias mitológicas (ou religiosas, dependendo do ponto de vista) já contadas pelo Homem seguem o mesmo padrão, ou a mesma estrutura narrativa. Ainda que os elementos mudem, a sequência de fatos é extremamente parecida em todas as sociedades. E para essa sequência ele deu no nome de “Monomito” ou “Jornada do Herói”.
O primeiro passo da Jornada do Herói é justamente alguém comum, que só quer continuar vivendo sua vida na sua zona de conforto, receber um chamado para uma aventura espetacular. Inicialmente esse alguém rejeita o chamado, mas, por uma série de razões, em um futuro próximo ele não terá escolha. É como se o universo puxasse ele pelo braço e falasse “é tu mesmo, vem!’.
O resto da estrutura vocês já conhecem por uma centena de filmes como Star Wars, Matrix, Avatar, Harry Potter e por aí vai… Mas vamos ficar com esse começo.
Caso Luciano Huck ainda esteja considerando ser candidato em 2018, bem, esse sinal dado hoje na Folha é tudo que ele precisa para encaixar sua própria narrativa dentro de uma estrutura de Jornada do Herói.
Luciano Huck, só mais um cara da TV de repente apontado por muitos como o “escolhido para salvar o Brasil”. Mas ele se vê como alguém comum. Como alguém que não pode vencer esse desafio,e dá para um passo para trás. É justamente nesse momento que os eleitores começam a pensar: “Puxa vida, a opção Huck não era tão ruim assim. Com outros candidatos piores na parada, por que não? Ajuda Luciano! Volte para nos salvar!”.
Não me surpreenderia se, daqui alguns meses, ele escrevesse um novo artigo começando por “Pensando bem…ouvi as vozes das ruas…e mudei de ideia!”. Seria um início perfeito para uma história típica de Jornada do Herói. Um prato cheio para qualquer marketeiro político. E uma esperança redonda para eleitores desiludidos.
Se ele vai fazer isso mesmo? Não sei. Mas Luciano, me ouça, se você ainda tiver segundos pensamentos, tem uma solução perfeita para você!”
Bruno Scartozzoni - 27 de Novembro de 2017

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Carta Aberta aos Ministros do STF

Eu quero agradecer, em meu nome e em nome de todas as pessoas comuns, cidadãos simples do meu país como eu, pelas últimas decisões tomadas pelo nosso Egrégio Supremo Tribunal Federal.

Sim, o Supremo fez de nós pessoas melhores do que pensávamos ser. 

Quando olhávamos aqueles Ministros sob suas togas, com passos lento e decididos, altivos, queixos erguidos, vozes impostadas ditando verdades absolutas e supremas, envoltos numa aura de extrema importância e autoridade, nos sentíamos pequenos, minguados e reles plebeus diante de uma Corte que beirava o sublime, o inatingível e o intangível.

Com essas decisões o Supremo conseguiu fazer com que a minha percepção sobre mim e sobre nós mudasse. Eles não são deuses. São pessoas tão pequenas e tão venais, que qualquer comparação que eu faça de mim e de nós em relação a eles, seria desqualificar-nos a um nível abissal. Tudo aquilo é fantasia, tudo aquilo é pose e tudo aquilo não passa de um teatro, mas nós somos reais.

Foi aí que eu vi o quanto somos mais importantes que eles! Enquanto as divindades supremas encarnam seus personagens de retidão e lisura, mas com suas decisões abduzem a moral e destroem o país (e de quebra a reputação do Judiciário), nós brasileiros comuns e sem toga trabalhamos arduamente dia e noite para construir o país, ou pelo menos para minimizar os danos que eles provocam

Então... Como é que um dia eu pude vê-los como sendo superiores a nós? Eu estava enganado. Nós somos muito superiores a eles, mesmo sendo zés, joãos, marias, desde o pequeno ambulante ao médico ou engenheiro. Nós somos as verdadeiras autoridades, porque nossa autoridade não foi conferida por um político malandro capaz de tudo com uma caneta. Nossa autoridade nos foi dada pela nossa força de continuar tentando fazer um Brasil melhor.

Fico sinceramente com pena é dos advogados, que são obrigados a chamar esses ministros de Excelência, ainda que com a certeza de que não há excelência alguma nos serviços que eles estão prestando à nação. Acho que deve ser o mesmo sentimento de ser obrigado a chamar o cachorro do rei de "my lord".

Agora eu sei o quanto somos bem maiores que eles, mesmo sem aquelas expressões em latim e doutrinas rebuscadas cheias de pompas e circunstâncias, que no final significam apenas passar perfume em merda. Se há alguém realmente importante no Brasil, esse é o Excelentíssimo Povo Brasileiro, que apesar de tudo é obrigado a sentir o mau cheiro que vem da grande Corte, e mesmo com náuseas e ânsia de vômito, tem que acordar as 5 da manhã pra fazer aquilo que eles não fazem: Produzir.

Obrigado, Supremo, por nos mostrar que hoje o rei sou eu e o meu povo.

Marcelo Rates Quaranta

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O Dia em que Sofri Extorsão Oficializada

Por volta de 1982, quando eu ainda estava ativo no mercado financeiro, constituí uma empresa de Factoring Comercial e a registrei na Junta Comercial do Rio de Janeiro.
O fato essencial é que a dita sociedade nunca funcionou ou foi ativa, não teve, jamais, qualquer receita, ou sequer emitiu uma única nota fiscal.
A partir de 2012, portanto 30 anos depois daquele evento, passei a receber intimações de cobrança de anuidades de certo Corecon – Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro, por conta de minha participação na tal companhia. Eram razoavelmente solenes, pois ostentavam as armas da República e vinham em envelopes oficiais do Banco do Brasil.
Não dei a menor importância a essas notificações, pois confiava no inciso XX do artigo 5º da Constituição Federal, que reza que ninguém pode ser obrigado a se associar ou se manter associado. Nem a empresa, muito menos eu tínhamos aderido ao dito Corecon.
Qual não foi minha surpresa quando, em maio deste ano, fui mimoseado em minha casa pela presença de um oficial de justiça que portava intimação para eu respondesse à ação de cobrança, com certidão de dívida ativa e demais penduricalhos jurídicos competentes.
Pedi a um advogado amigo que me defendesse, mas, desde logo, estava sentenciado à condenação, transferida da pessoa jurídica que nunca havia funcionado para a minha individualidade.
Mais ainda. Logo adiante foi decretada a penhora on line em minhas contas bancárias pessoais do valor de três mil e poucos reais, correspondentes à pretensa e fictícia dívida com o dito Corecon.
Em nome de possível defesa da profissão de economista, o que não sou, nem nunca fui, o tal Corecon promoveu contra mim uma extorsão fardada com as armas da República e revestida de todas as formalidades legais.
É assim que se pretende incentivar investimentos no Brasil? E onde fica a segurança jurídica que deve permear as atividades econômicas?

Ney Carvalho é historiador e escritor.

domingo, 29 de outubro de 2017

Procurando no lugar errado

VESPEIRO: A capa do dia 25/10/2017 do Estadão é uma síntese perfeita do drama brasileiro. Sob a manchete “Itália faz alerta para a Lava Jato” uma foto ocupando 80% da largura da primeira página por metade de sua altura mostrava Gherardo Colombo e Piercamillo Davigo, respectivamente promotor e juiz envolvidos na “Mãos Limpas”, a operação de combate à corrupção que, encerrada ha 25 anos, tinha chacoalhado a Itália pelos 13 anos anteriores, e Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, promotor e juiz à frente da nossa Lava Jato, em campo ja ha 4 anos.
A primeira frase da reportagem que resumia o que se apurou no evento que reuniu os quatro na sede do jornal, era “A corrupção na Itália, 25 anos depois, voltou ao mesmo nível de antes das investigações”. E seguia o texto relatando que os protagonistas da operação brasileira estão cientes de que ela não basta para salvar o país e cobram “a aprovação de reformas políticas, estruturais e de educação” para chegarmos a resultados concretos no campo do combate à corrupção.
Mas aí começa o problema. Que reformas, exatamente?
Por baixo de cada personagem na foto havia uma frase destacada. Gherardo Colombo dizia que “Não é que faltavam provas, é que o sistema de corrupção era muito forte a ponto de proteger-se”. Relacionando Brasil e Itália, Piercamillo Davigo registrava que: “Todos sabem que quem faz as listas eleitorais controla os partidos. Ha filiações compradas”. Deltan Dallagnol emendava que “O Parlamento continua legislando em causa própria; ministros do STF soltam e ressoltam presos”. A Sérgio Moro, mais pé-no-chão, atribuiam um “Claro que como cidadão ha tensão sobre a eleição se aproximando, mas eu vou seguir fazendo o meu trabalho”.
A frase que primeiro chamou minha atenção foi a de Piercamillo. E dentro dela, aquele “todos sabem”. Quando a “Mãos Limpas” chegou ao esgotamento pelo cansaço da plateia com a falta de resultados concretos ja faziam quase 80 anos que a primeira grande operação de sucesso de uma nação unida contra a corrupção tinha terminado nos Estados Unidos. E a primeira bandeira dela, na longínqua virada do século 19 para o século 20, foi precisamente a da adoção da reforma sem a qual “todos sabiam” já àquela altura que nenhuma outra poderia chegar a bom termo no campo da política: a despartidarização das eleições municipais de modo a abrir o sistema à irrigação permanente de sangue novo e a instituição de eleições primárias diretas em todas as demais para tomar dos velhos caciques corruptos o controle da porta de entrada na política.
Daí saltei para a frase de Gherardo, da qual a de Deltan é praticamente um complemento. As duas são meras constatações de uma realidade que nos agride em plena face de forma cada vez mais violenta diariamente. Mas nenhuma aponta o que interessa que é de onde vem, essencialmente, essa força que permite aos políticos “proteger-se” e “legislar em causa própria” e aos juizes “soltar e ressoltar presos” impunemente. Foi essa a segunda bandeira da reforma americana. É de velho como ela que se sabe que essa força decorre, antes de mais nada, da intocabilidade de seus mandatos, problema que remediou-se pra lá de satisfatoriamente dando-se poder aos eleitores para retoma-los a qualquer momento com o “recall” e livrar-se dos juizes que “soltam e ressoltam presos” desconfirmando-os na primeira ação imprópria com a instituição de eleições diretas para a confirmação ou não de juizes em suas funções (“retention election”) a cada quatro anos. A receita se tem mostrado infalível para agilizar a prestação de justiça e fazer esses servidores calçarem as sandálias da humildade e esquecerem para sempre o hábito de se auto-atribuirem privilégios como convém às democracias. Quanto aos promotores, assim como todo funcionário envolvido com prestação de serviços diretos ao público ou, sobretudo, com fiscalização do sistema e com segurança tais como xerifes e até policiais em um grande numero de cidades e estados americanos, esses só chegam ao cargo por eleição direta. Um santo remédio para coibir abuso de poder e violência policial e para incentivar a aplicação da firmeza necessária contra o crime.
Não sei quanto aos italianos, mas Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, ambos ex-alunos de Harvard, certamente conhecem essas soluções e já ouviram pelo menos alguma coisa sobre a história da sua implantação. E, no entanto, quando chega a hora de propor remédios para o Brasil, ficam só no mais do mesmo, com dezenas de medidas que reforçam os seus próprios poderes quando o argumento indiscutivel do resultado, que eles chegaram pessoalmente a viver e experimentar, diz claramente que a resposta não está em reforçar os poderes estabelecidos, já pra lá de excessivos no Brasil mas, ao contrário, em fragiliza-los para aumentar os do eleitor.
O problema que matou a “Mani Puliti” como poderá matar a Lava Jato é, portanto, o pouco que ela se propôs ser face ao muito que poderia e deveria ter desencadeado.
Cabe, finalmente, examinar a posição do próprio jornal nessa discussão. Ainda que se destaque pelo esforço para não se submeter à “patrulha” que zurra e escoiceia ante qualquer esboço de argumento crítico racional, com o que ameaça matar não só a Lava Jato mas todo o ensaio brasileiro de democracia, também O Estado não ultrapassa o limite que a latinidade daqui ou de além mar se impôs.
O brasileiro não sabe o que são primárias diretas, “recall”, “retention election” de juizes, federalismo, referendo e iniciativa legislativas não golpistas. Nunca viu uma cédula de uma eleição americana com as dezenas de decisões que se submete diretamente ao eleitorado na carona de cada eleição. Não sabe o que é o sistema de City Manager e porque esse é o modelo de gestão municipal que se generalizou no país que, por dispor desses instrumentos, tornou-se o mais próspero, o mais inovador e o mais livre que a humanidade já juntou sob uma única bandeira.
A imprensa brasileira só se permite difundir, quando não festejar, aquilo que fracassou.

O Flamengo precisa aprender a aprender

Arthur Muhlenberg: Tem um poema do Leminsky que diz no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto, que extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais. E o poema se conclui com o verso de inaudita sabedoria:
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

Ora, uma grande parcela dos problemas e pequenos probleminhas que o Flamengo enfrentou nos últimos anos está intimamente relacionada ao fato de que o Flamengo ainda não se esqueceu do que é ser um clube da Zona Sul carioca que ainda cultiva anacrônicos fumos de elite fin-de-siècle e tampouco aprendeu a ser a empresa que joga duro no doggy-doggy worlddo futebol business. Às vezes se comporta com excessiva brandura e lentidão no trato das coisas flamengas, em outras se perde em uma imatura submissão às leis do mercado para atingir suas metas. Metas que muitas vezes estão na margem oposta ao comportamento institucional que o senso comum espera de um clube com seu tamanho, história e composição social.
Esse Flamengo, meio clube meio empresa, que transita entre imaturidade e a obsolescência muitas vezes sem passar pela excelência ainda tem muito o que aprender. O que suscita a pergunta: por que o Flamengo não aprende? Caso você ainda não o tenha feito vou responder logo à pergunta. O Flamengo não aprende porque as organizações, no geral, não aprendem. Não é segredo pra ninguém que o Flamengo, já faz algum tempo, está vivendo a radical transição de clube para empresa. Uma metamorfose complicada em que o mesmo corpo abriga um clube de 122 anos, orientado por ritos, tradições e idiossincrasias ancestrais e a startup ainda na primeira infância, orientada para o crescimento rápido, foco no sucesso e no resultado financeiro, mas ainda estabanada como qualquer criança.
É até natural que o Flamengo apresente os sintomas de um distúrbio de aprendizado. Que é moléstia comum até nas grandes corporações que conhecem exatamente o produto que estão vendendo. Não tenho certeza que o Flamengo saiba exatamente o que é que ele está colocando no mercado. Qual é o core business do Flamengo, o seu negócio principal? Há quem diga que o produto do Flamengo é futebol, os mais emaconhados dizem que o Flamengo vende emoções e outros ainda que o Flamengo é um fornecedor de conteúdo na indústria de entretenimento. Resumindo: o Flamengo, e nisto está junto a todos os outros clubes do Brasil, ainda não sabe, ao menos não com um índice confiável de certeza, em que mercado está atuando. E isso o Flamengo tem que aprender o quanto antes. Pelo menos antes dos outros.
Um estudo da Harvard School of Business fez pesquisas durante 10 anos com uma infinidade de empresas na gringolândia para entender porque as empresas têm tanta dificuldade para se tornar, ou permanecer, como organizações onde o aprendizado é constante. O estudo concluiu que as pessoas, que no fundo são as empresas, tem uma predisposição a se concentrar excessivamente no sucesso, em agir muito rapidamente, a depender demais de especialistas. E que essas arraigadas tendências humanas interferem diretamente sobre o aprendizado.
E no caso especial do Flamengo o problema é ainda mais agudo, porque para a grande maioria de seus consumidores o sucesso é aferido através de resultados esportivos obtidos em uma janela de 3 anos, onde o imponderável fica responsável por pelo menos 80 centavos de cada Real investido. O foco no sucesso, que a olho nu é uma virtude, e o bom tom recomenda que seja uma profissão de fé de todo dirigente do Flamengo, é na verdade uma armadilha. Lideres empresariais podem até dizer que o aprendizado vem dos fracassos, mesmo que todas as suas ações mostrem uma preocupação exclusiva com o sucesso. Mas se o presidente do Flamengo der declaração semelhante soarão as trombetas do Apocalipse em um troar ensurdecedor que colocará a Nação em fúria iconoclasta.
O problema da preocupação excessiva com o sucesso é a família que ele leva pra passear nos domingos. Os probleminhas são o medo de falhar, a mentalidade fixa, o excesso de crédito dado a performances anteriores e a tendência de culpar terceiros pelos insucessos. Puxa vida, é até difícil lembrar de alguma crise no Flamengo nos últimos 40 anos que não tenha a ver com os probleminhas passeadores. O Flamengo até hoje tem suas estratégias definidas por vice-presidentes que vão ao clube após o término do expediente em seus respectivos negócios e empregos. A contratação de especialistas para tocar o dia a dia do Flamengo não foi invenção da Chapa Azul em 2013, mas deve-se à ela a despersonalização da administração, afastando o dirigente amador dos processos executivos. Um inegável avanço, mas que como tudo na vida, também tem um custo.
Ao concentrar os processos executivos em profissionais remunerados, os Azuis trouxeram para dentro do clube uma cultura corporativa onde, conforme vimos acima, o aprendizado fica prejudicado. Cultura que reforçou em todo o corpo executivo a necessidade, muitas vezes irracional, de fazer algo, de tomar uma posição, declarar um princípio moral ou cívico. A aversão à inação é uma constante no mundo dos negócios, mas os resultados práticos desse viés ativo nem sempre sobrevivem ao escrutínio dos livros-caixa.
É o caso clássico das estratégias dos goleiros na hora do pênalti. Um estudo feito na Inglaterra mostra que os goleiros que ficam paradões no meio do gol são os que tem a melhor performance. Claro, eles já saem com 33,3% de chance de impedir o gol. Ainda assim só 6,3% dos goleiros adotam essa estratégia. Por que? Porque os humanos, e em especial os humanos exercendo funções executivas, se sentem melhor e acham que ficam melhor na foto quando levam o gol se jogando pra um lado ou pro outro do que quando ficam parados esperando no meio do gol e deixando inteligentemente a responsabilidade da ação, e o peso total de um eventual fracasso, com o cobrador.
A fissura em agir gera exaustão e rouba muito tempo do pensar. Podem perguntar pra qualquer executivo no que eles preferem trabalhar, no planejamento ou na execução de uma ação e se conclui rapidamente que as organizações reservam muito pouco tempo para o essencial trabalho de pensar. A falta de tempo para a reflexão resulta em más decisões. No Flamengo as más decisões parecem se concentrar cruelmente no Departamento de Futebol. E resultam na montagem de equipes que, independente de quanto custem, encontram enorme dificuldade pra entregar o que delas se espera.
Pelas minhas contas, que não são muito confiáveis, nos últimos 20 anos o Flamengo ainda não conseguiu ter sequer um elenco montado antes da pré-temporada. Absolutamente todos, inclusive os que foram capazes de conquistas nacionais, foram montados ao longo das competições, com todas as desvantagens que a prática de trocar o pneu com o carro em movimento acarreta. Nossa seca de grandes conquistas esportivas é um exemplo eloquente que a execução repetitiva de um processo equivocado não o transforma em um processo acertado. É outra coisa que o Flamengo precisa aprender.
A transformação pela qual o Flamengo passa é um processo longo, talvez eterno. Talvez nunca cheguemos a ser uma empresa, mas é certo que jamais voltaremos a ser apenas um clube. É impossível aos contemporâneos entender essa transição em sua plenitude. O que é possível entender é que quem estiver à frente do Flamengo, seja lá quem for, também estará, queira ou não, em um processo de aprendizado. E que toda solução encontrada forçosamente criará novos problemas que exigirão mais e mais aprendizado. Se a única certeza que temos é que tudo vai dar problema, a única salvação está em aprender. Para que pelo menos não se repitam os erros passados. Aprende, Flamengo.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Tomou, ministro?


Tudo começou na sexta-feira. Horas antes da exibição do último capítulo de ‘A Força do Querer’, Moraes reclamou numa palestra da suposta glamorização da personagem Bibi Perigosa, vivida por Juliana Paes. Declarou que a novela de Glória Perez “mostra aqueles bailes funk, fuzil na mão, colarzão de ouro, mulheres fazendo fila para os líderes do tráfico, só alegria. Aí mostra a Bibi, que se regenerou, ela tentando procurar emprego e não conseguindo. Qual é a ideia que é dada? Que é melhor você não largar. Enquanto você não larga, você tá na boa. É uma valorização. Aí podem dizer que essa é a realidade. Mas tá passando isso de uma forma glamorizada.” O repórter sustentou que, no Supremo, a coisa é muito pior. Anotou que, não fosse uma senhora bem-posta, Glória Perez talvez dissesse a Moraes algo assim: a TV Justiça “mostra aquelas sessões plenárias do Supremo, Constituição na mão, toga sobre os ombros, poderosos fazendo fila à espera de sentenças que nunca chegam, só alegria. Aí mostra o Aécio, que se safou. A Primeira Turma tentando impor sanções e o plenário impedindo. Qual é a ideia que é dada? Que é melhor você não largar o foro privilegiado. Enquanto você não larga, você tá na boa. Aí podem dizer que essa realidade precisa mudar. Mas sempre haverá um ministro no Supremo para pedir vista do processo e declarar, com glamour: 'Tem que manter isso'!” Ex-ministro da Justiça de Michel Temer, Moraes não se notabilizou pelo combate ao tráfico. Coordenou a elaboração de um plano nacional de segurança que a realidade vai convertendo em pó (com trocadilho!). No Supremo, porém, Moraes tornou-se notável rapidamente. Pediu vista do processo sobre a limitação do alcance do foro privilegiado. Com seu gesto, favoreceu ex-colegas de governo que respondem a inquéritos na Suprema Corte. Evitou, por exemplo, que ministros como Moreira Franco e Eliseu Padilha tivessem o mesmo destino do ex-ministro Geddel Vieira Lima, preso preventivamente na Papuda. Na resposta, Moraes enquadrou o repórter: “A ignorância de Josias de Souza é tão grande que não sabe que a vista do foro foi devolvida em setembro. Estude mais. Criticar é fácil.” Embora reconheça que precisa estudar muito para alcançar a genialidade de Moraes, o signatário do blog não ignora que o ministro já devolveu o processo à presidência do Supremo. O problema é que permanece pendente de julgamento uma encrenca que poderia ter sido julgada há 143 dias, não fosse o providencial pedido de vista. De resto, Moraes renderia homenagens à transparência se explicasse por que ficou sentado sobre o processo por mais de 100 dias. Ex-secretário de Segurança do governo tucano de São Paulo, Moraes compôs no Supremo a maioria de 6 a 5 que transferiu para o Legislativo a palavra final sobre sanções cautelares impostas a parlamentares. Graças a esse recuo, o Senado pôde restituir a Aécio Neves o mandato que a Primeira Turma do Supremo suspendera. Sobre isso Moraes não se animou a escrever uma mísera palavra no Twitter. Aos internautas que o criticaram, o ministro respondeu com uma interrogação: “Vocês concordam com o glamour do tráfico de drogas, banhado a sangue, contra o trabalho sério do povo brasileiro?” O repórter, por ignorante, não etendeu a analogia que o ministro tentou estabelecer. No encerramento de ‘A Força do Querer’, Bibi estava regenerada. Rubinho, seu marido-traficante foi passado nas armas pelo comparsa Sabiá, que recebeu voz de prisão de Jeiza, uma policial militar de mostruário. Salvo melhor juízo, Glória Perez quis realçar a tese segundo a qual o crime não compensa. E a plateia, a julgar pela audiência, foi trabalhar no dia seguinte embevecida com o sucesso da novela.
É compreensível que Moraes não tenha gostado do que viu. A realidade que a ficção exibe só existe porque autoridades como o ministro fracassam em suas tentativas de combater o crime. De resto, Moraes está habituado com uma realidade que ultrapassa qualquer ficção. Os últimos movimentos do Supremo ensinam que não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, ele muda de nome. Só não vê quem é ignorante e burro. Ou aliado do tráfico (de influência). O repórter, atento ao conselho supremo —“estude mais”—, não ousaria discordar de alguém que fala da ignorância e da burrice com tamanha supremacia. Trata-se, evidentemente, de um especialista.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

AntiDefesa de Temer

A defesa que o advogado de Michel Temer entregou à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara é, na verdade, uma antidefesa. Um paradoxo envenena a peça. Eduardo Carnelós, o novo defensor do presidente, sustenta que a segunda denúncia da Procuradoria não passa de uma “tentativa de golpe” para derrubar seu cliente. A coisa estaria fadada ao insucesso, pois a acusação, além de “inepta”, é produto de uma “farsa” urdida pelo ex-procurador-geral Rodrigo Janot em conluio com os “malfeitores” da JBS. Ora, uma denúncia assim, tão clamorosamente insustentável, seria arquivada pelo Supremo Tribunal Federal sem titubeios.
Por que, então, congelar as acusações de organização criminosa e obstrução à justiça no necrotério da Câmara? Qual é o sentido de adiar o encontro de Temer com o processo penal para depois do término do mandato presidencial? Por que deixar para depois uma desmoralização que poderia ser imposta a Janot imediatamente? Por que sonegar ao Supremo a oportunidade de desnudar um 'golpe'? É incompreensível que, podendo restaurar sua biografia, Temer prefira se autoemporcalhar, tornando-se o primeiro presidente sub judice da história, um ponto de interrogação com caneta e Diário Oficial à disposição para comprar a cumplicidade dos deputados.
De duas, uma: ou Temer é um tolo ou é um mentiroso. Nas duas hipóteses, não é o presidente que o Brasil merece. De resto, entre as incontáveis perguntas que a defesa deixou no ar, uma é especialmente intrigante: com que propósito Rodrigo Janot tramaria um “golpe”? O antecessor de Raquel Dodge revelou-se um arqueiro meio trapalhão. Mas não há vestígio de acerto que ele tenha firmado com o DEM para fazer de Rodrigo Maia o próximo presidente da República.
By Josias de Souza

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Socialismo Fabiano - A história

O que é o socialismo fabiano - e por que ele importa

Antes da Revolução Russa, o Partido Comunista tinha duas alas: Bolchevique e Menchevique.
Os Bolcheviques acreditavam na imediata imposição do socialismo por meios violentos, com confisco armado das propriedades, das fábricas, e das fazendas, e o assassinato dos burgueses e reacionários que porventura oferecessem resistência.

Já os Mencheviques (que também se auto-rotulavam social-democratas) defendiam uma abordagem mais gradual, não-violenta e não-revolucionária para o mesmo objetivo.  Para estes, a liberdade e a propriedade deveriam ser abolidas pelo voto da maioria.

Os Bolcheviques venceram a Revolução Russa e implantaram o terror.  No entanto, após cometerem crimes inimagináveis, eles praticamente desapareceram do cenário.  Já os Mencheviques, no entanto, não apenas seguem vivos como também se fortaleceram e se expandiram, e estão no poder de boa parte dos países democráticos.

Os mencheviques modernos seguem, em sua essência, as mesmas táticas dos Mencheviques russos: em vez de abolirem a propriedade privada e a economia de mercado, como queriam os Bolcheviques, os atuais mencheviques entenderam ser muito melhor um arranjo em que a propriedade privada e o sistema de preços são mantidos, mas o estado mantém os capitalistas e uma truncada economia de mercado sob total controle, regulando, tributando, restringindo e submetendo todos os empreendedores às ordens do estado.

Para os mencheviques atuais, tradições burguesas como propriedade privada e economia de mercado devem ser toleradas, mas a economia tem de ser rigidamente regulada e tributada. Políticas redistributivistas são inegociáveis.  Uma fatia da renda dos indivíduos produtivos da sociedade deve ser confiscada e redistribuída para os não-produtivos.  Grandes empresários devem ser submissos aos interesses do regime e, em troca, devem ser beneficiados por subsídios e políticas industriais, e também protegidos por tarifas protecionistas.

Acima de tudo, cabe aos burocratas do governo — os próprios mencheviques — intervir no mercado para redistribuir toda a riqueza e manter a economia funcionando de acordo com seus desígnios.

No entanto, a estratégia menchevique não se resume à economia.  A questão cultural é tão ou mais importante.  Para os mencheviques atuais, a cultura burguesa deve ser substituída por uma nova mentalidade condicionada ao modo de pensar social-democrata, e a estratégia para isso consiste na imposição lenta e gradual de uma revolução cultural.

Os mencheviques, fiéis ao seu ideal "democrático", sempre se sentiram desconfortáveis com a ideia de revolução, preferindo muito mais a "evolução" gradual produzida pelas eleições democráticas.  O estado deve ser totalmente aparelhado por intelectuais partidários e simpatizantes, de modo a garantir uma tomada hegemônica das instituições culturais e sociais do país.  Daí a desconsideração pelos gulags e pela revolução armada.

Como tudo começou

As raízes do menchevismo atual não estão na Rússia de Lênin, mas sim na Londres de 1883, quando um grupo de socialistas adeptos do gradualismo fundou a Sociedade Fabiana.  Liderada por um cidadão chamado Hubert Bland, os mais famosos membros da sociedade eram o dramaturgo George Bernard Shaw, os autores Sidney e Beatrice Webb, e o artista William Morris.

A Sociedade Fabiana tem este nome em homenagem a Quintus Fabius Maximus, político, ditador e general da República Romana (275-203 a.C.) que conseguiu derrotar Aníbal na Segunda Guerra Púnica adotando a estratégia de não fazer confrontos diretos e em larga escala (nos quais os romanos haviam sido derrotados contra Aníbal), mas sim de incorrer apenas em pequenas e graduais ações, as quais ele sabia que podia vencer, não importa o tanto que ele tivesse de esperar.

Em suma, Quintus Fabius Maximus era um estrategista militar que evitava qualquer confrontação aberta e decisiva; em vez disso, ele preferia fatigar seus oponentes com táticas procrastinadoras e cansativas, manobras enganadoras e assédios contínuos.

Fundada exatamente no ano da morte de Marx com o intuito de promover as idéias do filósofo alemão por meio do gradualismo, a Sociedade Fabiana almejava "condicionar" a sociedade, como disse a fabiana Margaret Cole, por meio de medidas socialistas disfarçadas.   Ao atenuar e minimizar seus objetivos, a Sociedade Fabiana tinha o intuito de não incitar os inimigos do socialismo, tornando-os menos combativos.

Ao contrário dos revolucionários marxistas, os socialistas fabianos conheciam muito bem o funcionamento das políticas públicas britânicas.  Sendo os especialistas originais, eles fizeram várias pesquisas, elaboraram planos, publicaram panfletos e livros, e criaram várias propostas legislativas, sempre contando com a ajuda de aliados nas universidades, igrejas e jornais.  Eles também treinaram oradores, escritores e políticos.  Sidney Webb foi além e fundou a London School of Economics em 1895 para ser o quartel-general desse trabalho.

Embora a Sociedade Fabiana jamais houvesse tido mais do que 4.000 membros, foram eles que criaram, promoveram e conduziram pelo Parlamento a maior parte das políticas sociais britânicas até o início da década de 1980.  O resultado foi uma economia em frangalhos e uma sociedade esclerosada, situação esta que só começou a ser revertida quando Margaret Thatcher começou a "desfabianizar" a Inglaterra.

Os fabianos foram bem-sucedidos em seu objetivo de criar um "estado provedor", um estado assistencialista que cuidaria não apenas dos pobres, mas também da classe média, do berço ao túmulo.

Seja na forma de compensações trabalhistas, ou de pensões e aposentadorias, seguro-desemprego e medicina socializada, os fabianos sempre enfatizaram a "reforma social".  Segundo o escritor John T. Flynn, os fabianos

Perceberam prematuramente o imenso valor das reformas sociais em acostumar os cidadãos a ver o estado como a ferramenta para curar todas as suas doenças e inquietudes.  Eles viram que uma agitação em prol de um estado assistencialista poderia se tornar o veículo ideal para incutir idéias socialistas nas mentes do cidadão comum.
Outra inovação fabiana: reformas sociais invariavelmente envolviam algum tipo de "seguridade".  As pessoas seriam induzidas a aceitar o socialismo caso este fosse apresentado por meio de modelos oriundos das ciências atuariais, tendo empresas de seguro como base.

Empresas de seguro genuínas, baseando-se em estatísticas de distribuição aleatória de acidentes, coletam dinheiro de seus segurados na forma de um consórcio e concentram-no em um fundo, desta forma tornando o mundo menos incerto para seus membros.  Os fabianos, muito espertamente, pegaram esse modelo e disseram: concentremos a riqueza de todos nas mãos do estado e seremos felizes, saudáveis e teremos uma vida melhor.

Aneurin Bevan, o ministro da saúde fabiano do governo trabalhista dos pós-guerra, que criou o National Health Service — o sistema estatal de saúde britânico (veja algumas notícias recentes da saúde britânica estatal aqui, aqui, aqui e aqui) —, chegou realmente a argumentar que tal modelo iria drasticamente aumentar a expectativa de vida de todos, chegando ao ponto de postergar a morte indefinidamente.

Mas a verdadeira visão fabiana do estado foi mais bem explicitada no livro de Sidney e Beatrice Webb intitulado Soviet Communism: A New Civilization?, publicado em 1935 (o ponto de interrogação foi removido do título após a primeira edição).  O livro glorificava a URSS de Stalin como se fosse virtualmente um paraíso na terra.

Como marxistas, embora de uma outra estirpe, os Webbs aprovavam o stalinismo — se não os meios, os fins.  "Os fabianos eram, de uma certa forma, marxistas mais bem treinados do que o próprio Marx", disse Joseph Schumpeter.  Que continuou:

Concentrar-se nos problemas que podem ser alterados por métodos políticos práticos, adaptar-se à evolução das questões sociais, e deixar o objetivo supremo ser alcançado automaticamente [por meio da alteração cultural das massas] é algo que está muito mais de acordo com a doutrina fundamental de Marx do que a ideologia revolucionária que ele próprio propôs.
Conclusão

No linguajar fabiano, impostos são "contribuições", gastos do governo são "investimentos", criticar o governo é "entreguismo" ou "falta de patriotismo", donos de propriedades são "elites", "reacionários" e "privilegiados", e "mudança" significa " socialismo".

Quando os atuais social-democratas pedem "sacrifícios" da população em prol dos "ajustes" do governo, tenha em mente que os fabianos diziam exatamente o mesmo, defendendo, segundo as próprias palavras de Beatrice Webb, a "transferência" da "emoção do serviço sacrificante" de Deus para o estado.

Para os fabianos, o estado (seus burocratas e toda a sua mentalidade) é o único deus por quem a população deve se sacrificar.

Por fim, vale ressaltar que o desaparecimento dos bolcheviques nunca foi lamentado pelos social-democratas fabianos.  Muito pelo contrário: os social-democratas fabianos agora detêm o monopólio da marcha "progressista" da história rumo à Utopia.

A janela de vidro pintada que adorna a casa de Beatrice Webb em Surrey, Inglaterra, mostra George Bernard Shaw e Sidney Webb remodelando o mundo com uma bigorna, tendo ao fundo o brasão da Sociedade Fabiana: um lobo em pele de cordeiro.  Aquele lobo está hoje entre nós.
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2331